SWAMI KRISHNAPRIYANANDA
SARASWATI
SOCIEDADE INTERNACIONAL GITA DO BRASIL
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90460-000 - Porto Alegre, RS
2a edição em Português – 2004-2005
"O
que é Ahimsa?
Ahimsa, é o
contrário de Himsa. De fato, Ahimsa diz respeito
a um comportamento que vise causar o menor sofrimento
possível. Quando falamos "comportamento",
estamos falando de ação ou Karma. Ahimsa é o
princípio chave de todo o Karma, e que por sobre
ele estão todos os outros princípios. Ahimsa é a
base para todo Yama e Niyama, ações pessoais
e coletivas; sem Ahimsa não se pode progredir
no Yoga. Uma vez que no mundo material estamos sujeitos
a três dores ou sofrimentos inevitáveis,
ou Dukha-traya, a saber: o sofrimento causado por outras
criaturas vivas e seres humanos; o sofrimento causado
pela natureza, e o sofrimento causado pelo próprio
corpo. Por isso, a conduta do Ahimsa é uma forma
de não aumentar ainda mais o que já é inevitável.
O Yogi não deve agredir nem mesmo com palavras,
obras e omissões, é isto que Ahimsa quer
dizer. Mas o Yogi não deve deixar de mostrar a
Verdade para alguém, principalmente para aqueles
que lhes pedem. Vejam o exemplo do amado Senhor Krishna.
Algumas pessoas perguntam se o fato de Arjuna ter sido
motivado a lutar não é um ato de violência
ou Himsa? Três fatores acompanham a ação
ou Karma conforme o dever: tempo, lugar e circunstâncias.
Por conseguinte, devemos mediar as ações
tendo em vista que cada coisa terá seu tempo,
seu lugar e sua circunstância. Isso significa que
ser pacifico não quer dizer que o Yogi seja alguém
ataráxico (indiferente, e estóico), mas
ser pacífico significa estar e ser agente no mundo,
conforme seu dever prescrito. Se não agimos conforme
o dever, também, somos agressores. Ser pacífico
não significa ficar somente dentro de uma caverna
murmurando OM ou distribuindo flores para as pessoas.
Devemos entender que cada um está sendo regido
por um dos modos da natureza material. Claro que nos é mais
agradável entrar em contato com pessoas no modo
da bondade ou Sattwa, mas há momento que temos
que agir, e esta ação pode ser ou parecer
violenta para o outro. Este é o caso da justiça
e do uso da força. As vezes um juiz tem que pedir
o uso da força para fazer a ordem restabelecer-se.
Este conceito é um conceito tão amplo que
não podemos dizer quem ou o que está absolutamente
certos. Há sempre dois lados. O que pode ser justo
para um pode ser injusto para outro. A lei do Karma é uma
lei que pondera as ações. Há tal
qual dois pratos que dosam as coisas. Se os pratos penderem
mais para o lado material a ação será,
por conseguinte, mais violenta e mais sofrida. Se, por
outro lado, penderem mais para o lado espiritual, não
será violenta e nem haverá sofrimento.
Krishna
disse para Arjuna. no Bhagavad-gita, 5.10:
brahmany
adhaya karmani
sangam tyaktva karoti yah
lipyate na sa papena
padma-patram ivambhasa
"Quem,
sem se apegar, entrega suas atividades ao Brahman,
sua ação não é afetada
por falhas (reações), assim como a água
do lago não toca numa flor de lótus".
Mais adiante,
no canto 10.5, Krishna diz:ahimsa
samata tustis
"Também
Sou a não-violência, o equilíbrio,
a satisfação, as austeridades penitentes,
a caridade, a fama, a infâmia, e, por Minha
determinação todas as entidades vivas
tomam diferentes arranjos (formas)".
Como
vemos, as ações do Senhor Krishna (como
podem ser vistas com toda a clareza no Krishna-lila)
não são ações violentas,
apesar de terem parecido como tais para os demônios.
Apesar da ação direta de destruição
dos demônios, através do uso da força,
como no caso exemplar da serpente Kaliya, vemos que
o Senhor Krishna quando menino acabou com a tirania
do rei das serpentes. Mas por que Ele fez e conseguiu
isso? "sarpanam asmi vasukih", ou
seja, "das serpentes Eu sou Vasuki", diz
Krishna no Bhagavad-gita (Bgita. 10.28). Entre os Nagas
- reis serpentes - Vasuki é o rei, seguindo
a Ele vem Sesha e Takshala. Certa feita os semideuses
e os demônios usaram Vasuki para bater o oceano
de leite tendo em vista obter o néctar da imortalidade.
Vasuki tanto liberou veneno quanto néctar. Mas
por uma misericórdia de Siva o veneno foi retirado,
e o néctar pode ser retirado no meio do veneno.
Esta é a Suprema compreensão que pode
ser retirada deste Lila transcendental: do veneno sai
o néctar (Bhagavad-gita 18.37). Muitas vezes
o serviço devocional e a prática do Yoga
autêntico é amargo no início, porque
exige todos os nossos esforços e a destruição
do egoísmo e da busca do gozo dos sentidos bem
como do fruto do resultado das ações.
Quando a mente se sente privada daquilo que a sustenta
- sempre de modo medíocre - ela se agita e acha
que está sendo violentada. Mas a força
de vontade do Sadhaka destrói os Vasana e Kleshas
fazendo com as imperfeições vão
sendo aparadas. Assim, no ponto de vista dos Vasanas
e Kleshas, as ações do Yogi são
violentas, porque eles querem continuar na supremacia
do poder, ou no controle das ações. A
pobre alma condicionada não vê saída.
Há um amontoado de conceitos e coisas que direcionam
o praticante para caminhos às vezes distintos. É por
isso, que a base da ação correta é o
Dharma, ou seja, a ação mediada pela
restrição do gozo dos sentidos grosseiros.
O que distingue uma ação divina de uma
ação demoníaca é a forma
da ação. Isso está muito claro
no Bhagavad-gita no canto 16. Mas quando falamos que
uma ação divina é superior a uma
ação demoníaca estamos sendo,
na devida proporção, violentos contra
a ação demoníaca. Então,
há toda uma axiologia ou permeação
dos valores. Na própria definição
do que vem a ser valor nós temos a posição
clara da ação correta: Valor: é aquilo
que não nos causa indiferenças. Isso
quer dizer que somente aquelas coisas que nos chamam
atenção, e para as quais não somos
e nem nos é indiferente, é que possuem
valor para nós. Swami Sivananda diz que uma
pessoa que comete atos impuros está tão
contaminada que não vê nenhum mal nisso.
Os pensamentos daquela pessoa estão tão
impuros que ela não consegue ver o problema.
Por isso, diz Sivananda, "Virtudes como sinceridade,
a seriedade e a aplicação são
as melhores fontes de poder mental. A pureza leva à sabedoria
e à imortalidade". Isso quer dizer que
pela ação pura, em pensamentos e obras,
atingimos a compreensão de Ahimsa.
Não
devemos pensar o Ahimsa somente em níveis corporais
e materiais. De fato, não há como atingirmos
a compreensão deste princípio fundamental
do Yoga sem antes termos internalizado o reto agir
e o reto pensar. As pessoas, no mais das vezes, estão
sendo influenciadas pelas sugestões alheias.
Sivananda nos chama a atenção: "Possua
o se próprio sentido de individualidade".
Isso quer dizer que devemos estar solidamente firmados
nas instruções puras e verdadeiras para
podermos ter uma mente serena e uma posição
acertada. Sivananda diz, em "O Poder do Pensamento
pelo Yoga, que "Todos nós vivemos num
mundo de sugestões. O nosso caráter é inconsciente
e diariamente modificado pela associação
com as outras pessoas". É por isso
que é importante a associação
com os devotos "Satsanga", e o constante
pensar no agir conforme o dever ou Dharma. Não é possível
seguir o caminho do Yoga sem Sadhana, seja do tipo
de for. Em qualquer caso, jamais poderemos meditar
e nos desenvolver espiritualmente se não tivermos
sólidos pensamentos no bem, e estarmos sobre
a influência do reto agir, fatores fundamentados
no Ahimsa.
Um fraterno abraço
Deste seu benquerente, servo no serviço de Gurudev
Swami Krishnapriyananda
Saraswati
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