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.: Os
ricos também sofrem :.
SRI
SWAMI KRISHNAPRIYANANDA SARASWATI
SOCIEDADE
INTERNACIONAL GITA DO BRASIL
SANATANA DHARMA BRASIL
GITA ASHRAMA
Porto Alegre,
RS - Brasil
1997-2006
Os
ricos também sofrem
A sabedoria milenar da Índia, diz que há três
tipos de sofrimentos no mundo que são inevitáveis,
e diante os quais passamos o tempo todo em nossas vidas materiais
tentando evitar ou amenizar seus efeitos, são eles:
o sofrimento ocasionado pelo próprio corpo (cuidados
diários,
doenças,
velhice, e morte); o sofrimento ocasionado por outras entidades
vivas (inclusive nossos semelhantes), e o sofrimento ocasionado
pela natureza (furacões, terremotos, maremotos, etc).
O mundo material é cheio de imprevistos, e nos mostra
a nossa insignificância diante da magnitude do Supremo.
Os sofrimentos que fazem parte inevitável do mundo material
são formas de nos chamar a atenção para
a inevitável finitude do corpo. Portanto, os últimos
acontecimentos no mundo, que envolvem grandes catástrofes,
com mortes inevitáveis de pessoas, são uma flagrante
constatação da afirmação filosófica
do sofrimento inevitável.
No mundo, todos somos passageiros, mas o nosso comportamento é de
tal forma que todos agimos como se fôssemos ser eternos
neste corpo finito. As mazelas da vida diária são
protagonizadas por nossas próprias posições.
Portanto, deve-se olhar as coisas que acontecem no mundo como
sendo lições de imortalidade e paz. A paz deve
ser um processo constante, de intenso construir em prol dos outros,
e não apenas de nós mesmos e dos nossos mais íntimos.
A imortalidade está dentro de nós, e ela se manifesta
na solidariedade aos que sofrem, e no abandonar de nossos egoísmos.
O
Tsunami, que ocorreu na Ásia no final do ano de 2004,
atingiu uma imensa população de milhões
de pessoas, mas que, de algum modo, já estavam acostumadas
com a miséria e o descaso do mundo para com a sua
situação
constante de sofrimento e miséria. As imensas ondas
que abalaram o mundo naquela ocasião, somente nos
mostraram que dor, fome, sofrimento, e doenças,
são inevitáveis,
e são exemplos vivos diários daqueles que
são
pobres, e mal tem o que comer, e fazem parte do descaso
dos que têm algum conforto material, e não
dividem o que possuem. Mas, ao mesmo tempo, o povo que
foi atingido pela grande
catástrofe que veio do mar no final de Agosto de
2005, e que, como sempre, foram solidários uns com
os outros, não presenciam a mesma solidariedade,
uns com os outros, por parte dos agora atingidos no lado
rico do mundo. E eles eram
quem já se achavam inexpugnáveis diante das
mazelas materiais. Mas o povo pobre e sobrevivente, abalado pelo Tsunami,
já voltou
para onde se acostumaram a viver solidariamente. Eles, naturalmente,
compreendem como sendo inevitável o que ocorreu com seus
parentes ricos, porque desde berço aprendem que o sofrimento
advindo da natureza é inevitável. “Nossa
gente, mesmo quem perdeu tudo, quis ajudar os outros que estavam
sofrendo", disse Sajeewa Chinthaka, que mora capital de
Sri Lanka, uma região seriamente atingida pelo maremoto
no final do ano passado, ao ver o desespero da falta de fraternidade.
De fato, os sobreviventes do Tsunami têm experiências
anuais com catástrofes, porque quando chega à estação
das chuvas, as casas onde moram ficam debaixo d’água.
Então, tão logo que as águas baixam, a vida
retorna ao normal, mas eles não abandonam uns aos outros.
Por
outro lado, o furacão Katrina, que destruiu a cidade
de Nova Orleãns, cidade construída abaixo
do nível
do mar, de forma desafiadora à natureza, sucumbiu,
de fato, na vã esperança dos mais ricos,
de que o dinheiro pode tudo, e que uma vida material estável
neutraliza todos os temores e catástrofes. Em questão
de poucas horas, milhares de pessoas ficaram ao relento
da própria
sorte, e nem mesmo souberam como começar a cuidar-se
de si mesmos. As grandes promessas materiais, os grandes
sonhos
de felicidade eterna, aqui e agora, e o pensamento ingênuo
de que se pode ser intocável quando se têm
fama e prestígio, ocasionados pelo conforto aparente
do dinheiro, foram literalmente por água abaixo.
Agora, o desespero toma conta dos ignorantes da solidariedade
fraterna. Nem mesmo
sabem como ajudar uns aos outros. Também, com as águas
que invadiram e tragaram toda uma cidade inteira, veio à superfície
a verdadeira realidade existencial de um povo, cujos governantes,
que mostram ao mundo uma cara de superioridade, não
sabem como fazer para ampará-los. A discriminação
da população negra está, também, bem evidente. Apesar de
constituirem 70% da população, somente os brancos fugiram
da catástrofe com
maior facilidade. Por que isso? Agora, devido ao despreparo
impotente, diante
do mais simples
e primitivo
princípio,
que é a manutenção do próprio
corpo, para evitar os seus sofrimentos inevitáveis,
muitos morrem de fome e frio, totalmente desamparados naquele
país
de brancos ricos, mas que está sendo
incapaz de agir para salvar seus cidadãos mergulhados
no desespero. E por uma lição divina, aqueles
que foram sempre considerados a escória da humanidade,
os pobres miseráveis sobreviventes do Tsunami, humildes
e noutro lado do mundo, estão
sendo os únicos capazes de auxiliar pelo exemplo
solidário
os até então “todo-poderosos”,
e que se mostram tão fracos diante da imperiosa
necessidade de se ajudarem uns aos outros para reerguerem-se.
O importante que ficará deste acontecimento, é a
lição de que todos somos iguais diante dos três
inevitáveis sofrimentos que o mundo material nos mostra
claramente, todos os dias. Também, ficará bem claro
que todos somos únicos e mesmos, e que nossa identidade
como seres humanos ultrapassa fronteira de raça, credo,
riqueza e pensamentos políticos. Somos frágeis
criaturas nas mãos dos desígnios de Deus, que a
toda hora nos mostra a Sua imensa misericórdia, mas que
teimamos em negar reconhecimento devido ao nosso tolo egoísmo. Como dizia a rainha Kunti, “ó Senhor, faça
as pessoas sofrerem, assim elas se lembram de Ti”. Tomara
não precisássemos disso! Hari Om Tat Sat
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