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REFLEXÕES DO CMI
Do ecumênico ao etomênico

SWAMI KRISHNAPRIYANANDA SARASWATI

SOCIEDADE INTERNACIONAL GITA DO BRASIL
SANATANA DHARMA BRASIL
GITA ASHRAMA
Porto Alegre, RS - Brasil
1997-2006

Sumário
1. Entendendo alguns termos
2. Inter-religioso

3. Etos comum

4. Conclusão


Do ecumênico ao etomênico.

Experiências junto ao Grupo de Diálogo Inter-religioso na 9ª Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas.

 

1. Entendendo alguns termos
Por definição, reunir os que têm algo em comum é “correligionar”. Unir os que têm um mesmo princípio legal é legislionar. Os primeiros são chamados de correligionários, os segundos, são assemblados ou congregacionados. Desta forma, na etimologia do termo, poderemos encontrar um propósito na palavra “religião”. Seguir uma “religião” é “religionar-se”; então, ela tem um sentido muito próximo ao correligionário. Por sua vez, a expressão “ecumênico” - cuja origem é do grego, “oikoumenikós” -, tem um claro objetivo de congregar aqueles que têm a mesma crença de uma identidade substancial na doutrina e na mensagem de Cristo. Isso é perfeitamente compreensível, uma vez seus correligionários são assemblados num mesmo fundamento ou etos em comum. Este é o ponto chave. Entendemos que a união destes assemblados, num mesmo princípio legislativo, promove um correligionamento; são agora correligionários. A expressão “ecumênico” está carregada de sentido tal como: “temos Cristo como unidade”. Mas hoje o tempo é outro. Não foi possível sufocar a expressão não cristã da religiosidade no mundo, mesmo unindo-se tantos cristãos divididos ao longo dos séculos. Com certeza, mais de 2/3 do Planeta não é cristão. Por conseguinte, se deve dar, agora, um novo sentido para “ecumênico”; quem sabe, o seu sentido original grego, “mesma casa” ou “casa comum”; este é um conceito razoável e de fácil compreensão, porque, de fato, todos vivemos nesta mesma casa chamada planeta Terra. E todos queremos a paz, então temos que nos dispor a reconstruí-la. Com fazer isso?

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2. Inter-religioso
O tempo consagra a palavra, diz o gramático. Então, “inter-religioso” é um termo emergente e de fácil compreensão. Ele é “inter” porque tem um estabelecimento ligante; forma um elo, que liga uma religião com outra; uma pessoa com outra. Estamos numa mesma casa comum, então, também, temos uma mesma validade comum enquanto entes existentes. O termo “inter-religioso” coloca-se além do simplesmente congregar alguns que são legionários de uma mesma fé. Inter-religioso é o fato de conviver com o estranho moral ou o diferente da nossa própria fé. Inter-religioso é a eticidade na amizade ou fraternidade humana, que está acima da fé individual ou congregacional. Inter-religioso é estar além até mesmo da própria religião, porque é tal qual uma “re-religião”; uma releitura do fenômeno religioso, que tem por base a unidade do humano, que se forma num diálogo aberto e construtivo. Ver o outro como “diferente”, pelo simples fato de ele ter uma outra “religião”, é ver a si mesmo apenas como membro de um grupo isolado; uma elite correligionária; não ver o Planeta como a casa de todos, onde todos respiram o mesmo ar. Isso é o que chamamos de “incomum”; não tem comunhão; não possui comunidade (unidade comum).

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3. Etos comum
Hans Küng, na sua objetividade na proposta de uma “ética em comum” para o mundo, tendo em vista a paz dos povos, aponta os pontos fundamentais do Inter-religioso. Eles são pontos “fundamentais” não porque são “fundamentalistas”, mas porque são a base da construção deste novo “oikós” planetário, a saber:

- Não haverá paz entre as nações, se não existir paz entre as religiões;

- Não haverá paz entre as religiões, se não existir diálogo entre as religiões;

- Não haverá diálogo entre as religiões, se não existirem padrões éticos globais;

Nosso planeta não irá sobreviver se não houver um etos global, uma ética para o mundo inteiro.*

Eis que precisamos encontrar este “etos comum”, em outras palavras, o “etomênico”. Com certeza, os valores, sua valoração e axiologia, passam pelo ponto crucial daquilo que entendemos como “valor”, e que na sua própria definição diz: “valor é aquilo que surge de algo que não nos causa indiferença”. Isso é o mesmo que dizer que “valor é aquilo que valoramos porque o diferenciamos”, e o fazemos porque aprendemos a valorar a diversidade. Sem conhecer o outro não é possível valorar quem ele é. Se ao nosso redor apenas estão os nossos correligionários, então os outros nos são indiferentes, não nos geram valor; não há mudança; não há paz. Como poderemos conhecer o outro? Aqui surge a educação como base e fundamento deste etomenismo. Educa-se e se exemplifica. Isso quer dizer que se ensina e se mostra a prática.

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4. Conclusão
Observa-se que a educação é o fundamento básico da construção de um pensar inter-religioso. Os Upanishads dizem que “ninguém ama o que não conhece”, de modo que, podemos entender claramente, que aquilo que nos causa indiferença não nos tem valor. O que devemos aprender a valorar? A diversidade é algo que percebemos na imediatidade; mesmo nossos próprios parentes são diferentes nos traços fisiológicos, temperamentos, etc. Essa é a constante no mundo. Por conseguinte, aprender a valorar a diversidade é “etomenizar-se”; desenvolver uma consciência de comum unidade. O diálogo inter-religioso é sim uma maneira de oportunizar este encontro entre os que ainda nos são indiferentes. Na medida em que deixam de ser indiferentes, passam, então, a ter valor.

Hari Om Tat Sat

Referências bibliográficas:

* KÜNG, Hans. Religiões do Mundo. Em busca dos pontos comuns. São Paulo, Verus, 2004. op.cit.p.17.

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