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SANATANA DHARMA

SWAMI KRISHNAPRIYANANDA SARASWATI

SOCIEDADE INTERNACIONAL GITA DO BRASIL
SANATANA DHARMA BRASIL
GITA ASHRAMA
© Direitos Autorais reservados
Porto Alegre, RS - Brasil 1997-2006

:: O Vedanta ::
Sumário
1. Uma "religião" prática diária
1.1. Dialética védica
2. Remotas origens
3. Mistérios profundos
4. Conhecimento advindo da experiência transcendental

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1. Uma "religião" prática diária
Um conhecimento que é desvelado, por intermédio de sábios ou Rishis meditantes (não confundir com médiuns), deu origem ao que conhecemos como Vedismo ou Sanatana-dharma, ou Vaidika-dharma. Chama-se vedismo porque tem Seus fundamentos nos Vedas, um grupo de Escrituras sagradas, que trazem a luz do conhecimento sobre o Supremo ou Brahman. Portanto, o Sanatana-dharma, apelidado pelos muçulmanos de "hindus", porque não conseguiam entender a unidade na diversidade dos Vedas, é a "religião ou justiça eterna". A razão dos sábios védicos não diferenciarem justiça de religião é importante. Primeiro, o conceito de "religião" que a tradição Brahmânica possui é diferente daquela que o Ocidente acostumou-se. Por conseguinte, "religião" não é um local, um conjunto de fiéis, alguém que abraçou uma fé, mas uma forma de atingir o elevado estado de "humanidade", ou seja, de seguir os preceitos de Manu, o Prajapati moral dos humanos. Aliás, o nome hu-manu quer dizer "aquele que segue Manu", uma vez que enquanto não há seguimentos de regras, adequadas para que se possa viver em sociedade, não há, de fato, hu-manidade, ou seja, não o ser vivo se encontra numa plataforma muito próxima a dos animais irracionais quando não segue regras. Este fator de compreensão de que o homem é um ser social está empregnado na cultura védica, e tem inspirado, desde milênios, os sociólogos através das gerações. Segundo, a distinção do sagrado e do profano somente ocorre na mente dualista do homem. Quando na compreensão de que o mundo é divino e sagrado, e que os sofrimentos inevitáveis são partes do processo da compreensão da Verdade Suprema, então não há mais dificuldade de viver em comunhão como divino; o sagrado é o agir humano, uma vez que o trabalho ou Karma tem em vista agradar o Supremo; somos parte e instrumentos do Brahman, portanto, "Faça tudo como uma oferenda para Mim; tu não irás incorrer em falha e impurezas!", instrui Krishna no Bhagavad-Gita. Se Karma, o trabalho humano, e o Dharma, a ação em conformidade ao dever, são conciliados, por conseguinte o viver é puramente espiritual. É por isso que os templos Hindus, no mais das vezes, não são grandes para acomodar muitas pessoas. Os rituais são feitos no exterior. As pessoas vêm ao templo para trazer suas oferendas e prestar serviços. Os encontros espirituais no templo são extenções da casa. O fazer diário é, por si mesmo, uma oferenda. O devoto está em profundo Yoga com o Supremo. Ele respeita o sacerdote do templo, e tem a sua vida direcionada para agradar a Deus sobre todas as coisas.

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1.1. Dialética védica
Esta visão não Ocidental, dissociada da realidade religiosa do dia a dia, é que faz a grande diferença do Santana-dharma dass religiões institucionais, onde seus adeptos atuam numa espécie de "papel" social religioso. O ocidente é analítico por excelência. Em contrapartida, o Sanatana-dharma é dialético intrínseca e extrinsicamente. Além do mais, Ele inspirou os sábios sobre o processo de construção da idéia, bem como do Pananteísmo. De um certo modo, tudo é Deus, então, Deus está em tudo e em todos. Sua dialética transcendental é o fato de ter Lilas ou passatempos junto aos humanos. Nosso intelecto não é capaz de entender os intrincados desejos do Supremo; este mundo é o mundo de Maya, de "representações"; no ser humano condicionado há uma tendência natural para a representação, para a mimese, por uma espécie de inveja do Supremo. Portanto, este "desejo de desfrutar do mundo", e nele representar como se fosse verdade o que é aparente, faz da alma uma prisioneira do Samsara, ou do eterno retorno num corpo, para desfrutar das suas variedades.

O viver religioso do Santana-dharma é algo muito diferente das religiões institucionais, tendo um profeta, um sábio, ou um líder político como fundador. Este viver não tem vínculo com o desejo de alguém em especial, apesar de ter na figura do Guru, do mestre espiritual, o representante do Supremo da Terra. Como há humores e inteligências distintas no mundo, do mesmo modo, há Gurus de humores e conhecimentos distintos, cada um adequado ao devoto: "Quando o discípulo está pronto, o mestre ou Guru aparece", é uma das máximas dos Upanishads, escrituras respeitadas como o télos (finalidade) da Verdade.

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Sri Amarnathji - o Senhor Siva na forma de um Lingan, dentro de uma caverna na Kashemira2. Remotas origens
Não sabemos ao certo quanto é que o Sanatana-dharma iniciou. Há fortes indícios arqueológicos que é uma "religião" presente na pré-história. Se considerarmos as Escrituras védicas como tendo um início por volta do ano 3.000 ante da nossa era, poderemos ver facilmente que os Vedas citam tempos anteriores. A razão é simples, de tempos em tempos o conhecimento se perde. Então há a necessidade da vinda do Supremo, na forma de um Avatar, que traz de volta o que se perdeu, no mais das vezes devido a cobiça humana.
Há sinais de adoração ao Siva Linga dentro de cavernas que antecedem a vida da escrita que hoje conhecemos. A lingua em que foram escritos os Vedas é o sânscrito, uma língua que, sabidamente, deu origem a milhares de outras, e não há termo ou expressão que não esteja presente originalmente na lingua dos Rishis. O conteúdo dos Vedas foi resultado de um tipo de "audição" pelos sábios, conhecido como Shruti. Estes textos foram espirados por Sri Brahmaa, o primeiro ser criado. Os Rishis eram, conforme a palavra diz, "videntes da Verdade"

Conforme Solange Lemaitre muito bem assinala, em "Hinduísmo ou Sanátana dharma, p. 11, "Nos tempos quase fabulosos da pré-história, o pensamento desenvolvia-se de modo muito diferente do nosso. Ele se exprimia de preferência por imagens, sílbolos difíceis de serem traduzidos, e mais difíceis ainda de serem interpretados". De fato, "Quase não se pode fazer uma idéia exata do que era essa religião para aqueles que a praticavam. Pergunta-se mesmo s eo ensinamento do Veda era voluntariamente velado aos olhos profanos a fim de que fosse dissimulado o seu sentido interno. Não era justamente um dos pontos essenciais do ensinamento védico o caráter sagrado e secreto do Conhecimento, conhecimento de si, e da verdadeira ciência dos deuses? Esse conhecimento podia constituir um perigo para os espíritos não preparados para o receberem, provocando uma interpretação falsa ou um mal uso do mesmo".

Notável é o fato que o conhecimento védico possui graus diferentes para cada um. "Havia um culto exterior, destinado ao público, e uma disciplina interior reservada aos iniciados. Assim acontece com os hinos védicos, que respondem por um sentido direto, concreto, às exigências rituais, embora conservando um sentido oculto em suas fórmulas sagradas". Por sonseguinte, somente "aqueles que tiverem a alma pura e a consciência desperta poderão ´entender´ o segredo das palavras pronunciadas de ´maneira acertada".

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Jagannatha3. Mistérios profundos
O mundo dos Vedas é um mundo de mistérios profundos. Tempo, lugar e circunstãncias marcam suas palavras. A sua dialética é tamanha que o Seu conhecimento permanece imutável apesar dos milênios. Swami Sivananda escreve que os Vedas são um tipo transcendental de conhecimento desvelado; sendo chamdos Shrutis, os Vedas são
Amnaya. "Os Hindus receberam suas religiões através da revelação dos Vedas. Estas eram revelações intuicionais diretas e eram seguras para serem consideradas Apaurusheya ou inteiramente supra-humanas, sem nenhum autor em particular. Os Vedas são as orgulhosas glórias dos Hindus, e além disto, de todo o mundo sábio".

O termo Veda advém da raiz sânscrita “Vid”, conhecer. A palavra Veda significa “conhecimento”. E quando ela se aplica às escrituras ela significa “livro de conhecimento”. Os Vedas são o fundamento das Escrituras Sagradas dos Hindus. O Veda é a origem de outros cinco grupos de escrituras; razão, até mesmo, do secular e do materialismo. O Veda é o depósito do conhecimento indiano, e a glória memorável do qual o homem jamais poderá esquecer até a eternidade.

Os Vedas são as verdades eternas desveladas por Deus para os antigos grandes sábios, Rishis, da Índia. A palavra Rishi significa “vidente, ou profeta”, derivado da palavra sânscrita “dris”, “ver”. Ele é o Mantra-Drashta, vidente do mantra ou do pensamento. O pensamento não de um sábio particular. Os Rishis viram a verdade ou ouviram-na. Portanto, os Vedas são o que foi ouvido (Sruti). O Rishi não Os escreveu. Ele não Os criou fora de si. Ele foi um vidente a partir daquilo que viu como já existente. Ele somente fez uma descoberta espiritual por intermédio da meditação. Ele, o Rishi, não é o inventor dos Vedas.

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4. Conhecimento advindo da experiência transcendental
O processo empírico, na busca do conhecimento, no Vaidika-dharma, chama-se Sadhana (diz-se çádha-na). Este Sadhana trata-se de um conjunto de regras, práticas, que têm em vista realizar espiritualmente o seu praticante. Portanto, há vários métodos de prática, como o Pranayama ou exercícios respiratórios; Asanas, ou posições físicas, etc., que agem como preparatórios para manter a mente quieta durante o processo. A mente humana possui uma natural tendência para a atrair-se pelos objetos que ligam aos cinco sentidos. Os passos dados como regras, para ir além do vulgar da mente, são chamados de Angas, e os mais notáveis e conhecidos por todos é o Ashtanga-Sadhana de Patañjali, belamene organizado nos Seus Yoga-sutras. Antecedendo milênios o método empírico formal cartesiano, e indo mais além por considerar o sentir como passo do processo, a dialética védica diz com todas as letras que é possível conhecer a Verdade Suprema, bastando ser perseverante no seguimento do Sadhana.

Swami Sivananda refere-se ao Sadhana como o método eficiente para o Yogi alcançar a meta da realização Suprema. Ele diz, "Sadhana é movimento espiritual conscientemente sistematizado. Sadhana é o propósito para o qual nós chegamos neste lugar (o mundo material). Abhyasa e Sadhana são termos sinônimos. O objetivo do Sadhana é libertar à vida das limitações com as quais ela está presa. Sadhana é um processo para toda a vida. Todo o dia, toda a hora, a cada minuto, numa marcha progressiva ele deve ser realizado. Os obstáculos são inumeráveis nesta grande viagem. Mas, conquanto você tenha Deus como seu guia, não há nada que irá aborrecê-lo. Você pode ficar certo que irá alcançar a outra margem. Algumas pessoas possuem a curiosidade para uma linha espiritual. Elas não têm uma sede real de libertação. Elas pensam que elas irão adquirir certos poderes ou Siddhis (poderes psíquicos), se elas fizerem algumas práticas yóguicas. Quando elas não obtêm os poderes, elas perdem a paciência e abandonam as práticas, abandonam o caminho espiritual, e, ora-ora, os Yogis e o Yoga. A mera curiosidade não irá ajudá-lo a alcançar qualquer progresso espiritual. A curiosidade passageira é a mais abominável do que o prejuízo passageiro. Introspecte-se. Analise os seus pensamentos e descubra sua verdadeira fome espiritual ou a mera curiosidade passageira. Transmute essa curiosidade passageira na verdadeira sede pela salvação pelo constante Satsang (associação com os sábios), estudo de bons livros religiosos, oração, Japa e Meditação. Você deve ter interesse e gostar do seu Sadhana, você precisa entender bem a técnica e os benefícios do Sadhana. Você deve escolher o Sadhana que é mais adequado para Você. Você deve ter habilidade e capacidade para fazer o Sadhana. Então, somente assim você terá alegria em fazer o Sadhana e o pleno sucesso nele".

Agradecimentos: agradecemos as correções gentilmente enviadas por Sri Kamaladeva Das

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