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SRIMAD
BHAGAVAD-GITA
Histórico
da narrativa épica
SRI SWAMI KRISHNAPRIYANANDA SARASWATI
© SOCIEDADE
INTERNACIONAL GITA DO BRASIL
SANATANA DHARMA BRASIL
GITA ASHRAMA
Porto Alegre, RS, Brasil
1997 - 2007
Sumário
1.
O que está se passando? Antecedentes
2. A Curiosa Kunti
3. O surgimento dos Pandavas
4. A proteção
de Krishna
1.
O que está se passando? Antecedentes
Para entendermos o Srimad
Bhagavad-gita, no seu contexto amplo, literário e histórico,
é necessário sabermos que Ele é uma pequena
parte da grande epopéia védica chamada Mahabharata
(maha= grande; bharata= Índia), fato que fez alguns gregos
desinformado acusarem os indianos de copiado as obras de Homero,
Odisséia e a Ilíada, assim que ouviram Suas narrativas
contadas pelos viajantes. Segundo a tradição védica,
o Mahabharata foi uma obra ditada, na verdade narrada, pelo
sábio Vyasadeva, e anotada na forma escrita, segundo
a tradição, pelo semideus, filho de Siva e Parvati,
chamado de Ganesha.
O aspecto puntual do Mahabharata, no contexto desta narrativa
do Bhagavad-gita, refere-se a ocupação não
legítima do trono da Índia por parte de um ambicioso
guerreiro da família dos Kurus, chamado Duryodhana, dando
origem a batalha de Kurukshetra. Dhritarashtra, pai de Duryodhana,
por ser cego, não pôde ser conclamado legítimo
rei, ainda que fosse mais velho do que seu irmão Pandu.
Isto deveu-se ao fato de que Pandu fora amaldiçoado,
numa certa ocasião, por um cervo, o que lhe impediria
de ter filhos naturais. Dhritarashtra, o rei cego, recebeu a
autorização de Pandu, por carta, para ocupar o
trono diretamente, apesar disto estar contrariando a tradição
secular da trasmissão de um reiono. Mas o reino do mundo
não poderia ficar sem um rei; por isso, o fato de Pandu
passar o trono para o seu irmão foi a solução
encontrada, pelo menos provisoriamente, até que houvesse
um legítimo herdeiro do trono, que, obviamente, deveria
ser filho primogênito de Pandu. Por sua vez, Dhritarashtra
(o rei cego) casou-se com Gandhari, tendo com ela cem filhos,
formando a família Kaurava, ou seja, a família
dos Kurus. O primogênito deste casamento, Duryodhana,
era de natureza ambiciosa e de caráter cruel, sedento
de po-der, e que queria, a qualquer custo, ocupar o trono na
sucessão de Pandu, que ficara impedido de assumir o trono
por causa daquela maldição. Pandu casou-se, mas
não teve filhos naturais antes de Dhritarashtra, mas
os teve de forma mágica. A primeira esposa de Pandu foi
Pritha, que recebeu, mais tarde, o nome de Kunti; Kunti era
uma bela jovem, e de coração muito bom, que fora
doada por seu pai, Shurasena, ao seu primo Kuntibhoja, porque
este não possuía filhos, daí o nome Kunti
(filha, adotiva, de Kuntibhoja). Na casa de Kuntibhoja, Srimati
Kuntidevi encarregava-se de servir a todos os convidados, sendo
muito educada e prestativa para com todos. Portadora de uma
conduta pura e casta, devotada ao serviço devocional
amoroso ao Senhor Supremo, Krishna, Kunti atraiu a simpatia
de um sábio denominado Durvasa. Este sábio, prevendo
que Kunti teria dificuldades para conceber filhos, em virtude
da maldição do futuro marido Pandu, concedeu-lhe
o dom de invocar os semideuses através de mantras para
gerar filhos de forma mágica. No Mahabharata está
escrito que Kunti, depois de ter recebido este dom do sábio
Durvasa, sentiu grande atração pelos raios do
Sol, enquanto meditava nas palavras mágicas dos mantras
recebidos do sábio. Então, Kunti pensou se Surya,
o semideus dos “mil raios brilhantes”, seria tão
belo como a estátua que havia no Templo do deus Sol;
curiosa, articulava o fato de que, se o mundo inteiro vê
o Sol durante o dia a noite ele seria somente seu. Numa noite
em que Kunti permaneceu acordada em seu leito até à
meia-noite, e enquanto lá fora a Terra jazia em silêncio,
e o palácio estava às escuras, Ela levantou-se,
foi à janela e, suavemente, recitou o mantra que havia
recebido de Durvasa para evocar Suryadeva, o semideus do Sol.
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Sumário
2.
A Curiosa Kunti
Apesar
de estar apenas fazendo um “teste de curiosidade”,
Surya atendeu o chamado de Kunti, que caiu desmaiada diante
da fulgurância que dele emanava. Do encontro com Suryadeva
e Kunti originou-se Karna que, pelo fato de ser de um semideus,
gerou-se e desenvolveu-se em um instante, e que nasceu como
uma criança resplandecente. Kunti, assustada, não
sabendo o que dizer ao seu pai, colocou o filho recém-nascido,
dentro de um cesto de vime, impermeabilizado com cera, e largou-o
à deriva no rio Yamuna, numa notável semelhança
com a história de Moisés. Este primeiro filho
de Kunti recebeu o nome de Karna, nome que lhe foi dado pelo
rei Adhiratha, que o encontrou à margem do rio Yamuna,
uma vez que fora, pela causalidade do destino, parar aos seus
pés. Este rei, vendo a resplandecência do menino,
adornado com brincos e uma espessa armadura de ouro, disse que
iria transformá-lo no melhor dos guerreiros Kshatriyas,
e isto aconteceu, indo logo aliar-se ao exército dos
guerreiros dos Kurus, onde estava Duryodhana.
Decorridos alguns
anos, e no momento em que Surasena achou que Kunti estava pronta
para casar, trouxe-se-lhe Pandu para se tornar seu esposo. Quando
retornava com Kunti para seu reino, Pandu recebeu como segunda
esposa Madri, filha do rei Madra, uma vez que Bhishma, havia
preferido Salya, irmã de Madri, para ser sua esposa,
e Madri ter sido prometida para casar com um rei. Assim coube
a Pandu o dever ético de recebê-la como esposa,
também, além de Kunti. Apesar de estar casado
já há algum tempo com Kunti e Madri, pela maldição
recebida, Pandu não podia ter filhos, pois durante uma
cassada flechara mortalmente um casal de cervos unidos em acasalamento,
sendo, então, amaldiçoado pelo macho antes de
morrer, e que, a exemplo das fábulas ocidentais, disse-lhe
que, pelo fato ter realizado tal feito, interrompendo um momento
desta natureza, jamais poderia Pandu ter filhos, pois, quando
tentasse relacionar-se sexualmente com sua esposa seria fulminado
mortalmente pela maldição. Após ter ouvido
a maldição dita pelo cervo, Pandu mencionou seu
desejo de internar-se na floresta, temendo morrer por um simples
ato de amor, e o que, de fato, veio a acontecer mais tarde.
As espo-sas de Pandu, Kunti e Madri, ficaram muito tristes,
e quiseram ir com ele para a floresta, e assim foi feito. Pandu,
então, entregou o seu anel real, junto com uma carta,
para um dos seus servos, dizendo que o levasse para Dhritarashtra,
o irmão mais velho e cego de Pandu. Por sua vez, tendo
recebido a notícia que Pandu, e suas esposas, haviam
deixado Kurujañgala, Dhritarashtra não mais comeu
e nem sequer dormiu. Diante disto, Bhishma, o avô, ancestral
comum de Dhritarashtra e Pandu, ordenou que aquele pegasse o
anel e governasse o reino, nomeando-o Kuru Dhritarashtra, “o
rei dos Kurus”. Por outro lado, tendo sido prometido ao
rei Gandhara que sua filha, Gandhari, seria desposada por um
rei, era preciso que Dhritarashtra assumisse, de uma vez por
todas, o cargo real, porque este estava vago pela retirada inesperada
de Pandu. Por sua vez, por saber da condição cega
de Dhritarashtra, Gandhari, sabendo que iria tornar-se esposa
do rei cego Dhritarashtra, cobriu os olhos com uma venda que
nunca mais tirou, para ficar numa condição semelhante
a de seu futuro marido. Com Gandhari, Dhritarashtra esqueceu
sua dor, resultante do afastamento de Pandu do reino dos Kurus.
Apesar de ter ficado grávida de Dhritarashtra, Gandhari
não paria por mais de dois anos, então, o rei
mandou chamar Vyasa, o grande sábio, e este lhe disse
que Gandhari trazia dentro de si uma centena de filhos, e que
só daria à luz após dois anos. Decorrido
este tempo, Gandhari, auxiliada por uma serva, deu à
luz uma bola dura de carne, e que dividida em cem pedaços,
por ordem de Vyasa, foram colocados por Bhishma dentro de cem
potes de bronze, previamente preparados, e cheios de ghee (manteiga
clarificada), regados com água pura, sendo os potes devidamente
selados e lacrados, e que foram escondidos no jardim do palácio,
sendo, talvez, que isto seja a maior confissão de engenharia
genética na produção de clones já
conhecida por nós; após dois anos, com os cem
pedaços que Vyasa havia cortado, nasceram 100 homens,
um a cada dia, e, com um pedaço que sobrara, nasceu uma
mulher, assim como no drama bíblico do surgimento de
Eva da “costela de Adão”, é um pequeno
pedaço do homem que dá origem à mulher.
O primeiro dos filhos de Dhritarashtra foi Duryodhana, e do
último jarro aberto surgiu Duhsala, a filha mulher.
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