CULTURA
RELIGIOSA
.:
Buddha e a filosofia Budista :.
SRI
SWAMI KRSNAPRIYANANDA SARASWATI
SANATANA DHARMA BRASIL
GITA ASHRAMA
2006
"...
eu entendia essa moral da compaixão, que cada
dia ganha mais terreno e que atacou e pôs enfermos,
inclusive aos filósofos, era o sintoma mais
inquietante da nossa cultura européia, a qual
perdeu seu próprio lugar, era seu desvio:
até um novo budismo? Até um Budismo
de europeus? um niilismo budista? Esta moderna preferência
dos filósofos pela compaixão e desta
moderna subestimação da mesma são,
com efeito, algo novo: precisamente sobre a carência
de valor da compaixão, a qual haviam estado
de acordo até agora os filósofos".
Friedrich
Nietzsche, Genealogia da Moral, prólogo
Sumário
1. Introdução
2. O Gautama
3. Libertando dos sacrifícios
4. Vilipêndio
5. Visões da filosofia atribuída a Buddha
6. Filosofia niilista e atéia
7. Vitória do teísmo de Sankara
5.
Visões
da filosofia atribuída a Buddha
As propostas levantadas por Buddha são interessantes,
e estão baseadas na visão ingênua
analítica e dualista, a saber:
1.
A criação é eterna; logo, não é necessário
aceitar um criador;
2. Esta manifestação cósmica é falsa
(Maya);
3. ‘Eu sou’ é a verdade;
4. Nascimento e morte se repetem;
5. O Senhor Buddha é a única fonte para
se compreender a verdade;
6. O princípio do Nirvana, ou aniquilação, é a
meta última;
7. A filosofia de Buddha é o único caminho
filosófico;
8. Os Vedas foram escritos por seres humanos;
9. Todos são aconselhados a praticar atividades
piedosas, mostrarem-se misericordiosos com os outros
e assim por diante.
É dito que Buddha zombava da Teologia e dos teólogos
bem como de tudo aquilo que mantinha pertinência
aos serviços religiosos védicos, e fizesse
menção a Deus. Por isso, diz Lissner “O
fato de ter Buddha criado uma religião universal,
recusando-se a deixar-se arrebatar para discussões
de ordem Metafísica referentes à essência
de Deus, à realidade da imortalidade e ao problema
da eternidade, é pelo menos surpreendente”.
Ponto de vista que nós concordamos perfeitamente,
uma vez que a filosofia de Buddha é niilista,
não se baseando em nada a não ser Nele
mesmo, ou na matéria existente. É uma religião
sem Deus; uma forma elaborada de materialismo sutil,
portanto, sem metafísica e dualista. Não
há espaço para o transcendente enquanto
metafísica. É um materialismo religioso.
Entre
outras tantas afirmações de Buddha,
encontramos uma que era constantemente dita por ele,
a saber: “o átomo não pode compreender
o cosmos”, e isto servia como resposta quando perguntavam
a Buddha: “Como havia sido criado o universo?”.
Também as perguntas, com relação
ao paraíso, que falavam os filósofos e
os teólogos da época, portanto, que defendiam
o mundo espiritual, eram consideradas por Buddha como “fantasias”, “jogos
do espírito” ou então, o “Jangal,
o deserto”. Buddha, sem compreender, abominava
o sistema de castas védicos; dizia ele que, “pobres
e ricos, velhos e jovens é tudo a mesma coisa”,
quando sabemos que há pobreza e riqueza, logo,
não pode ser a mesma coisa. Apesar de Buddha admitir
qualquer membro de que casta fosse nas suas fileiras,
ele não as extinguiu, uma vez que, ao mesmo tempo
que as condenava, defendia o fato de que nascer numa
ou em outra casta era o resultado do Karma (influência
do Jainismo) de atividades e vidas passadas. Entretanto,
ao tornar-se monge, o seguidor de Buddha imediatamente
ficava acima de qualquer classe, uma vez que tinha tido
contado com e conseguido a “verdadeira sabedoria”.
Por outro lado, isso não se trataria de nada novo.
Buddha, tendo suas origens filosóficas entre os
Sivaistas e Jainistas, tinha aprendido sobre Varna e
Ashrama. Sabia do Karma e das suas conseqüências.
No
Vaishnavismo, uma das ordens filosóficas do
Sanatana Dharma, defende-se semelhante idéia de
igualdade na essência. Podemos ler no Bhagavad-Gita,
5.18 - adotado como sendo princípio desvelado
por Krishna para Arjuna -, num verso onde está escrito: “O
sábio humilde, em virtude do conhecimento verdadeiro,
vê com igualdade um Brahmana aprazível e
erudito, uma vaca, um elefante, um cachorro e um sem
casta Pária)”.
O
Budismo, na sua base filosófica nega enfaticamente
a realidade substancial do eu e do não-eu, dissolvendo-os
em puros elementos fenomênicos, mesmo que ainda
estejam interconectados. Como diz Padovani & Castagnola, “Assim,
o indivíduo humano não tem realidade estável
nem como espírito nem como corpo, os quais são
complexos mutáveis de elementos fenomênicos.
Não é real o ser, mas o ato. Este determina
aquela agregação de elementos fenomênicos,
que é a nossa personalidade empírica, pelo
desejo e pela vontade de viver. Essa vontade de viver,
por sua vez, procede da (inconsciente) ignorância
da vaidade do mundo e da vida. É loucura, portanto,
apegar-se à vida, e é sabedoria libertar-se
dela”.
Se
olharmos com sinceridade os textos de Buddha - ou melhor,
dos seguidores de Buddha, uma vez que Ele não
escreveu qualquer linha, à semelhança de
Sócrates, etc., veremos neles – ainda que
soe contraditório - uma espécie de retomada
epistêmica dos textos védicos originais.
Mesmo diante da aparente zombaria de Buddha dos textos
sagrados, observamos que ele era um erudito nos textos
védicos, o que demonstra sua transcendental atitude
diante dos Vedas. Na verdade, isso é considerado
um Lila védico (passatempo transcendental de Vishnu),
na medida em que ele, ao negar, ao mesmo tempo afirma
a validade os textos védicos.
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